Não precisamos de explicadores do Brasil a partir dos vencedores, como intelectuais que lêem o já escrito e que a partir do já escrito escrevem a história; necessitamos de histórias contadas pelos vencidos
Francisco Josivan de Souza
A formação do Brasil não é matéria de geografia, de história, de economia e das demais ciências apenas. Ao contrário, à formação do Brasil responde também, como matéria e como conditio sine qua non de fabricação deste país, a tarefa do imaginário. Para alcançar os seus objetivos, os fundadores deste país tiveram sempre às suas mãos engenho e arte, com o que criaram os mais variados mitos e as mais variadas aventuras e a forjação de uma nação “grande e livre”.
O processo de fabricação mitológica do Brasil obedece, como boa narrativa, aos mais requintados padrões das mais variadas formas literárias: texto teológico, literatura épica, poesia romântica, trovadoresca, humanista, modernista. Sem, necessariamente, obedecer à ordem de estilos literários conforme mencionados acima.
A primeira tentativa de fabricar a terra chamada Brasil mito-literariamente, após a documentação oficial e o registro de posse (pela Carta de Caminha), é a teológica. A grande disputa de então é acerca da bondade ou da maldade inerente(s) aos povos aqui residentes (por acaso) quando da faustosa ocupação de direito das terras. Eram os povos daqui dotados de alma? Sim ou não? Por detrás da resposta – não importando qual fosse – estava a certeza de que a explicação era teológica. Bons, os residentes das terras recém-ocupadas seriam certamente advindos de Deus tanto quanto os homens da Europa; se maus, tinham como origem o demônio, sendo, portanto, necessitados da catequização para realizar, ao menos, a salvação de suas almas.
Em qualquer das respostas, a explicação teológico-cristã dava conta da origem, do destino e da explicação da necessidade da catequização: eram maus – por isso a catequese; eram bons, mas sem deuses – por isso, a catequese.
Mitológicas Explicações
Assim, pois, a primeira experiência de explicar o Brasil, nas mãos dos detentores do sagrado e de seus textos (os sacer-dotis), fundamenta a necessidade de uma religião forte e monoteísta aqui; uma religião que fosse capaz de des-bestializar os selvagens aqui residentes e fazer, das terras do Brasil, posse de Deus, geridas espiritualmente pela Igreja e, temporalmente, por aqueles que, "tementes a Deus e por Ele guiados", descobriram essas terras maravilhosas e as gentes daqui para o bem da Igreja. De forma que os descobridores seriam, também, por Deus escolhidos como os gerentes, com registro em cartório, das terras da Santa Cruz.
Havia que explicar o Brasil para os residentes, por acidente, no Brasil. Mais que isso: explicar a existência do mundo a partir de um criador macho, único, omni-potente, omni-presente e omni-sciente para aqueles que, embora bons, não conheciam a verdadeira forma de agradar a Deus e sequer tinham conhecimento do Deus verdadeiro; era a obra de primeira necessidade entre os explicadores-do-sagrado.
Assim, pois, conhecer as línguas dos residentes, bem como as suas crenças e os seus costumes, é fundamental para dizer-lhes que todo esse tempo estão agindo errado. No entanto, por obra da bondade de Deus, os explicadores-do-sagrado cá estavam justamente para corrigir esse problema.
Cidade de Deus
Conhecendo a língua dos residentes cá, usariam os métodos advindos de-além-mar para comunicarem com mais facilidade e eficácia: nada como o teatro maravilhoso europeu; entendendo os nomes dos seus pseudo-deuses, lhes garantiriam que esses a quem eles clamavam eram, na verdade, demônios maus e, felizmente, sem força diante do grande Deus que agora conheceriam; analisando a sua forma de organização política, lhes provariam que não era correta, posto que o rei de-além-mar, nomeado por Deus e dEle representante, é que na verdade sabe governar como ninguém, na justiça vinda dos céus, em vista da construção da "Cidade de Deus"; observando a divisão do trabalho, lhes garantiriam que por aquela forma não chegariam nunca a lugar nenhum, de forma que deveriam aprender a trabalhar o máximo possível para a realeza que sabia-mais-que-eles, esperando o favorecimento de Deus, presente nas bugigangas que nunca veriam não fossem os povos de-além-mar.
O problema foi que nem todos entenderam o projeto: alguns advindos (ou filhos de advindos com as mulheres de cá) decidiram que não seriam os detentores-do-sagrado os possuidores da terra (um engano semântico), mas eles, pois trabalharam muito mais. E essa posse deveria ser contra os que cá moravam antes dos advindos, pois que eram preguiçosos e não mereciam estas terras, posto que não sabiam trabalhar. Havia que, pois, provar a nesciência e a selvageria dos habitantes de cá e lhes tomar as terras (mesmo que às custas de guerras, pois as guerras têm como objetivo algo grandioso: uma grande pátria).
Outro problema ainda maior: alguns residentes cá, não tendo compreendido a proposta dos advindos, ou mesmo selvagens "pela própria natureza", decidiram guerrear contra os advindos, contra o projeto de Deus e a proposta do rei (por tabela). Foi preciso muita tinta para explicar as façanhas épicas dos grandes lutadores por parte dos advindos: muita selvageria tiveram de enfrentar os filhos-bem-nascidos destas terras que se tornou Brasil graças aos povos advindos do norte de-além-mar.
Outros povos, vindos do sul de além mar, também chegaram cá e, pela benevolência dos povos do norte de-além-mar que aqui residiam ou dos filhos destes, fizeram parte da fabricação faustosa deste Brasil. Evidentemente, nunca tiveram condições intelectuais ou humanas de fazer deste um País pelo qual poderíamos nos ufanar. Por isso, lhes foi bondosamente reservado o lugar de escravos, posto que era uma posição muito melhor que trabalhador em países como a Alemanha.
Resistência
Houve quem se rebelou contra a bondade dos benfeitores desta Nação, desafiando a grandeza do Brasil e demonstrando o quanto o animal feroz vindo do sul de-além-mar tinha ainda de aprender a ser humano. A saída da Nação foi usar as suas forças, para o bem do Brasil, contra os rebeldes, que fugiam para altas serras ou longínquas florestas, prometendo uma divisão do País. Derrotados, tiveram de pagar o preço de não se encaixarem no projeto Civilizacional da Nação.
Mais tarde, com uma já partejada característica nacional, percebeu-se a grandeza dos homens aqui residentes desde sempre. É verdade a força dos vindos de-além-mar-norte, mas é mais verdade ainda a grandeza hercúlea dos indígenas Tupi. Tinham, claro, entre os residentes desta Nação, alguns que eram preguiçosos e que nunca fariam deste um País faustoso. No entanto, a figura da terra, da selva, conhecedora dos rios, das plantas, das artes nativas; rica em conteúdos culturais nativos e sabedora do seu lugar, de forma que não se metia onde não era chamada; essa figura era o herói nacional. Diante dela, reconheceríamos a nobreza de Robespierre, a sabedoria dos Césares, a indestrutibilidade de Hércules, a paixão de Orfeu... Peris, Tupãs, Tibiriçá são os nomes gloriosos desta terra.
Tomar as rédeas
O Brasil era "gigante por sua própria natureza". As suas maravilhosas matas explicavam o futuro desta Nação sem limites.
Entretanto, a Nação tinha de descobrir com mais clareza a sua missão e precisava criar uma característica que fosse grande como a sua natureza e respondesse ao crescimento mundial: precisava ter um caráter puro brasileiro, de um povo nascido a partir das grandes navegações e da coragem dos povos do norte-atlântico. Ainda selvagem, o Brasil precisava entrar na era da evolução positiva.
Os advindos do sul-atlântico e os aqui residentes antes das ocupações do além-mar, inferiores naturalmente, deixariam lugar a um grande povo: firme, dotado de valores republicanos, branco, aberto ao conhecimento científico e para ele capacitado, dotado da riqueza cultural das belas artes, amante do amor racional e cristão e base para uma Nação com as características das nações européias, exemplos da civilização.
O caminho, pois, era investir no enriquecimento cultural do povo. Por isso, nada mais natural que criar escolas para os filhos dos homens nobres desta Nação, possuidores de grandes bocados de terras e, portanto, somente quem poderia fazer do Brasil um País rico. Os filhos dos homens da fazenda não abandonariam, em momento algum, os incapacitados e, se estes não se rebelassem contra o País, lhes dariam o que-viver cotidiano: panem et circenses.
Ia ficando evidente, pouco a pouco, que o Brasil somente não era ainda a primeira grandeza mundial por causa da preguiça inerente aos advindos e filhos dos advindos do sul-atlântico e aos residentes cá antes da ocupação (por Deus querida) dos advindos do norte-atlântico.
A solução era, com certeza, tomar as rédeas do desenvolvimento e dá-las a quem de direito, distribuindo os poderes entre os explicadores do Brasil. Àqueles que teimavam em fazer do Brasil um País ainda sem crescimento (situação presente apenas em localidades nas quais a cultura superior não tinha ainda conseguido ser priorizada) deviam ser explicados os motivos do Brasil estar "em vias de dar certo", quando "já teria dado certo" se fossem apenas considerados os elementos da cultura superior como fundamentais para a Nação. Desta forma, ainda, fundamental era considerar prioridade as riquezas culturais de la cultura des beaux-arts, des ciences, nascidas nas localidades nas quais a civilização foi mais benevolente com o Homem: a Europa. Assim, não mais poderiam ser tolerados movimentos que levassem ao atraso do Brasil, sobretudo que tais movimentos entrassem em choque com a vocação civilizacional brasileira.
Tupi or not Tupi
Houve quem decidiu mastigar as beaux-arts, comendo-as e fazendo uma arte que, queriam, fosse nacional: Bach, Debussy, Monet, Eliot, Shakespeare, Voltaire... foram devorados e desses ritos de devoramentos – quiseram os devoradores – nascia o Brasil Moderno - "Tupi or not Tupi/That is the question".
Porém, as explicações do Brasil ainda lhe colocavam como um "País do futuro". "O caminho é a indústria!" Massas de humanos saíam de casa, agora, não mais para a roça ou para o boteco, mas para o emprego. Sem isso, o Brasil seria pobre para sempre! Havia que formar a massa para o trabalho técnico e explicar-lhe da importância do seu trabalho: o Brasil era como uma grande locomotiva, sendo todos os vagões muito importantes para a Nação e cada vagão era um trabalhador; assim, ninguém poderia querer abandonar o seu posto, de forma que, se assim fosse, o Brasil descarrilaria.
A grande locomotiva havia? Sim, mas todos os vagões deviam constantemente ficar em seus devidos lugares, posto que todos os vagões caminhariam juntamente com a grande locomotiva, fazendo do Brasil a grande Nação do século 20.
Houve quem decidiu fazer diferente... A explicação? Exploração do trabalho humano. Um mito implantado por um judeu de que a mais-valia é exploração e de que o operário nunca conquistará o que constrói. Como não, se tudo o que se constrói é para todos e todos participam de tudo?
Como dantes, contra os atrasadores do Brasil um grupo se levantou e fez do Brasil um grande canteiro de obras por décadas. Reclamava-se da fome? Sim, mas era impaciência de crianças que estão prontas para comer o bolo de aniversário antes mesmo que esteja ele assado. A solução era deixar o bolo crescer...
E que venha a Copa do Mundo de futebol...
Uma nova imaginação
As fabricações do Brasil, bem como de sua história, obedecem às normas cultas da linguagem e às lógicas do desenvolvimento civilizacional do mundo. Não somente quem ocupa um terreno e nele trabalha tem direito à posse do terreno (como queria o filósofo empirista inglês John Locke , posto que ele foi superado), mas, mais ainda, quem inteligentemente lidera os trabalhadores do terreno deve possuir o terreno e mais ainda os corpos dos produtores do terreno, em nome do Mercado (que tem uma mão que não sabemos onde está).
No entanto, as fabricações do Brasil fizeram deste um País no qual milhões trabalham para alguns poucos lucrarem desse trabalho. O suor de milhões alimenta as garrafas de vinho de alguns poucos; o alimento de milhões não pode ser oferecido aos animais de estimação de alguns poucos sob risco de os animais se recusarem à tamanha baixeza.
Ao final das contas, porém, não é possível fabricar (de ficção, mesmo – com referência ao antropólogo estadunidense Clifford Geertz) um País sem um imaginário. Move-se o povo ("um ovo", segundo o poeta, ensaísta e cronista do Estado de Minas Gerais Affonso Romano de Santanna) a partir de um imaginário e "precisamos de um novo imaginário" (Cornelius Castoriadis – filósofo grego (1922-1997), autor de A instituição imaginária da sociedade). Um imaginário que faça dos povos que habitam a região geográfica que hoje denominamos Brasil potências de vidas e re-vidas constantes, a partir de suas riquezas culturais próprias (religiões, mitos, ritos, jogos, práticas educacionais...).
Não precisamos de explicadores do Brasil a partir dos vencedores, como intelectuais que lêem o já escrito e que a partir do já escrito escrevem a história. Necessitamos de histórias contadas pelos vencidos, leitores (obrigatoriamente, em bancos escolares) dos escribas vencedores e destes críticos, forjando uma nova história e um novo imaginário, possibilitador de uma nova realidade (sempre insatisfatória, mas processualmente vital). Não queremos evoluir (como queria Edward Tylor – antropólogo britânico (1832-1917), maior expoente do chamado evolucionismo cultural e autor da obra Primitive Culture, de 1871), mas vitalizar o humano – ou re-vitalizar. Como a Caetano, não nos basta Pátria, ousamos querer Mátria e, mais ainda, Frátria.
Francisco Josivan de Souza é mestre em Educação pela PUC-SP.
Publicado no Jornal Brasil de Fato ( que sou assinante )
edição nº 310
2 comentários:
Olá, amigo.
Obrigado por publicar o meu texto em seu espaço. Aliás, foi bom ter conhecido-o.
Sugiro, apenas, que remeta os seus leitores à página do Brasil de Fato ou, o que é melhor para o Jornal, mencione a publicação na edição nº 310 do Jornal referido, edição impressa. Assim, prestarás um serviço ao Jornal.
Abraços.
Sugestão aceita e já adicionada a postagem.
Grande abraço.
Postar um comentário