terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Índios dizem que hidrelétricas do Teles Pires ameaçam locais sagrados


Líderes promovem encontro com procuradores e reforçam oposição a barragens na região; usina de Teles Pires já está em obras.

Procuradores da República do Mato Grosso e do Pará estiveram na última semana na Terra Indígena Kayabi, na divisa entre os dois Estados, a convite da população, das etnias Kayabi e Munduruku. Segundo o Ministério Público Federal, seus representantes ouviram reclamações sobre o andamento de projetos de hidrelétricas que afetarão a região. O local foi, inclusive, palco de um conflito maior em outubro, quando as duas tribos fizeram como reféns sete funcionários da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Na época, o objetivo já era chamar a atenção para a luta contra as hidrelétricas e, naquele momento, mais especificamente, a usina de São Manoel (700MW). A principal queixa é sobre a ausência de consulta aos povos locais, que é um direito colocado na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

“Se o governo tá desrespeitando a lei, a Constituição, a Convenção 169, tá desrespeitando também todos os caciques. E pra nós isso é questão de vida ou morte, porque a água é a nossa vida”, disse Jaime Munduruku. “Enquanto tiver cacique e tiver a Constituição, vamos lutar contra essas barragens”, finalizou.

Os índios ainda dizem que a construção de hidrelétricas na região vai destruir três locais sagrados de suas crenças no rio Teles Pires: o Morro do Jabuti, o dos Macacos, e um conjunto de cachoeiras conhecidas como Sete Quedas. Segundo a tradição, esses locais são onde vivem os antepassados mortos e, em caso de violação, grandes tragédias se abaterão nas proximidades.

"Nas Sete Quedas onde estão os maiores peixes do mundo é onde mora também a Mãe dos Peixes. É por isso que os peixes vêm todo ano, para visitar as sete cachoeiras onde vive a mãe deles. Não pode mexer lá, se a gente deixar mexer, vai levar muita gente junto, porque embaixo das cachoeiras tem uma cidade que não é dos brancos, é dos índios. É a cidade para onde vão todos os índios mortos ”, explicou José Emiliano Munduruku.

O MPF diz que a importância religiosa e mitológica coincide com a ambiental. "Nas sete cachoeiras enfileiradas, de fato, ocorre a desova de algumas espécies de peixes da região, como pacu, pirarara, matrinchã, pintado e piraíba, que chegam a medir até 2 metros", diz o órgão, em comunicado em seu site.

Os procuradores ainda dizem que as cachoeiras Sete Quedas podem ser destruídas "a qualquer momento", uma vez que a obra da hidrelétrica de Teles Pires, a maior prevista para a bacia, está em andamento e já estariam sendo realizadas explsões nessa área do rio.

O MPF iniciou duas ações civis públicas na Justiça Federal contra as usinas Teles Pires e São Manoel e diz que tem acompanhado o andamento dos demais projetos na região. Para o órgão, os estudos sobre o impacto das usinas nos peixes "foram considerados suficientes pelo próprio Ibama". Ainda é questionada a falta de levantamento sobre o patrimônio cultural indígena.

"O governo brasileiro não se preocupou em identificar e estudar a importância cosmológica, mitológica e religiosa do rio, desrespeitando o direito dos índios à própria identidade cultural", sustentam os procuradores.

Fonte: Topnews



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